Resposta direta: a ficha de anamnese é o registro que prova que você perguntou sobre contraindicações antes de encostar na cliente. Ela precisa de 6 blocos: dados pessoais, histórico de saúde, hábitos, histórico do procedimento, avaliação técnica da profissional e termo de consentimento com cláusula de LGPD. Sem o último bloco assinado, você está tratando dado sensível de saúde sem base legal.
Sou a Beatriz Oliveira. Atendo em Limeira/SP há mais de uma década e já formei muita gente que começou sem ficha nenhuma — anotando no caderno ou não anotando. Vou te mostrar o que a ficha precisa ter e por quê, e no final você baixa os modelos prontos que uso no Instituto.
Por que a ficha existe (não é burocracia)
Design de sobrancelhas é profissão livre no Brasil: não tem conselho de classe nem registro obrigatório, e não existe lei que te obrigue a manter ficha de anamnese. Vou ser honesta sobre isso porque muito curso vende a ficha como obrigação legal, e não é.
O motivo real é outro, e é mais prático: a ficha é a única prova de que você perguntou.
Imagine a situação. A cliente teve reação à henna. Ela diz que avisou da alergia. Você lembra que ela não avisou. Sem ficha assinada, é a palavra dela contra a sua — e você é a profissional, então o ônus tende a cair no seu colo. Com ficha, existe um documento em que ela mesma escreveu que não tinha alergia conhecida, e assinou embaixo.
É o mesmo raciocínio de quem guarda nota fiscal. Você não guarda porque adora papel; guarda porque no dia em que precisar, não dá pra fabricar depois.
Os 6 blocos que a ficha precisa ter
1. Dados pessoais e contato
Nome completo, telefone, data de nascimento. Parece óbvio, mas a data de nascimento importa: menor de 18 anos precisa de autorização do responsável, e isso tem que estar registrado. Se a cliente tem 16 anos e você não checou, o consentimento dela não vale sozinho.
2. Histórico de saúde
Aqui é onde mora a proteção. O mínimo que precisa ser perguntado:
- Alergia — a cosmético, a henna, a látex, a anestésico tópico. Pergunte aberto e específico.
- Gestação ou amamentação — muda a conduta em vários procedimentos.
- Diabetes — altera cicatrização e resposta da pele.
- Uso de ácidos (retinoico, glicólico, salicílico) na região ou próximo dela.
- Isotretinoína (Roacutan e similares) — inclusive quando parou. A pele fica frágil por meses depois da suspensão.
- Problema de pele ativo na área: dermatite, ferida, herpes.
3. Hábitos e rotina
Exposição solar, piscina, sauna, uso de maquiagem à prova d'água, se costuma coçar ou puxar o pelo. Isso não é curiosidade: define a durabilidade que você pode prometer e evita a cliente achar que o trabalho "não durou nada" quando ela vai à piscina todo dia.
4. Histórico do procedimento
Já fez antes? Quando foi a última vez? Com qual produto? Teve alguma reação? Uma cliente que fez henna há uma semana com outra profissional não pode receber o mesmo procedimento hoje como se fosse a primeira vez.
5. Avaliação técnica da profissional
Esse bloco é seu, não dela. É onde você registra o que observou (formato, falhas, assimetria, tipo de pele), o que aplicou, qual produto e lote, e qual foi o tempo de pose. Em caso de reação, saber o lote do produto é o que permite rastrear.
6. Termo de consentimento com cláusula de LGPD
Esse é o bloco que quase toda ficha caseira esquece, e é o mais importante juridicamente.
Informação sobre saúde é dado pessoal sensível pela Lei Geral de Proteção de Dados (art. 5º, II). E o tratamento de dado sensível exige consentimento específico e destacado, para finalidade determinada (art. 11, I). Traduzindo para a sua realidade: não basta a cliente assinar a ficha. Precisa ter uma cláusula própria, separada, dizendo para que você vai usar aqueles dados — e ela precisa assinar sabendo disso.
Sobre guarda: a LGPD não fixa prazo para esse caso. O critério é guardar enquanto durar a finalidade e o risco de questionamento. Na prática, guarde em lugar de acesso restrito e nunca deixe ficha com dado de saúde à vista no balcão — isso sozinho já é vazamento.
Uma ficha por procedimento, não uma ficha genérica
Esse é o erro mais comum. A pessoa faz uma ficha só e usa para tudo. O problema é que cada procedimento tem uma contraindicação diferente, e a ficha genérica deixa de fora justamente a pergunta que te protege.
| Procedimento | O que a ficha genérica esquece de perguntar |
|---|---|
| Design e henna | Alergia a henna e a corante, uso de ácido na região, procedimento anterior recente |
| Extensão de cílios | Saúde ocular: glaucoma, blefarite, terçol recorrente, olho seco, cirurgia ocular, sensibilidade ao cianoacrilato do adesivo |
| Limpeza de pele | Isotretinoína (inclusive quando parou), ácidos em uso, herpes recorrente, tratamento estético anterior |
| Brow lamination | Sensibilidade a produto químico, pele reativa, intervalo desde a última aplicação |
Repare no caso dos cílios: você trabalha a milímetros do olho, com adesivo à base de cianoacrilato. Uma cliente com blefarite ou olho seco tem risco real. Nenhuma ficha de sobrancelha pergunta isso.
Baixe os modelos prontos
Estas são as fichas que usamos no Instituto. Cada uma cabe em uma folha A4, com o termo de consentimento e a cláusula de LGPD já inclusos. É só imprimir em sulfite comum e usar. Uso livre, sem cadastro.
- Ficha de anamnese — Design de sobrancelhas (PDF, 1 página A4): dados pessoais, histórico de saúde, avaliação e procedimento.
- Ficha de anamnese — Extensão de cílios (PDF, 1 página A4): inclui os blocos de saúde ocular e visão, histórico de cílios e avaliação técnica com mapping.
- Ficha de anamnese — Limpeza de pele (PDF, 1 página A4): inclui histórico estético e cosmético, tratamentos anteriores e avaliação da profissional.
Se você imprimir e sentir falta de algum campo para a sua realidade, adapte. A ficha tem que servir ao seu atendimento, não o contrário.
Perguntas frequentes
Ficha de anamnese é obrigatória para designer de sobrancelhas?
Não existe lei que obrigue especificamente. A profissão é livre no Brasil. Mas a ficha é o único registro que prova que você perguntou sobre contraindicação antes do procedimento — sem ela, numa reclamação, é a palavra da cliente contra a sua.
Preciso pedir consentimento por causa da LGPD?
Sim. Dado de saúde é dado pessoal sensível (art. 5º, II da LGPD) e exige consentimento específico e destacado (art. 11, I). Na prática: cláusula própria na ficha, dizendo a finalidade, com assinatura.
Por quanto tempo guardo as fichas?
A LGPD não fixa prazo para esse caso. Guarde enquanto durar a finalidade e o risco de questionamento, em local de acesso restrito.
Posso usar a mesma ficha para tudo?
Não é o ideal — cada procedimento tem contraindicação própria, como mostra a tabela acima. Ficha genérica deixa de fora a pergunta que te protege.
E se a cliente for menor de idade?
Precisa de autorização do responsável, e isso tem que estar registrado na ficha. Por isso a data de nascimento não é campo decorativo.
A parte de atendimento, documentação e organização do negócio é o que mais trava quem está começando — por isso ela entra junto com a técnica no curso online de Designer de Sobrancelhas. Mas as fichas acima são suas de qualquer forma, faça curso comigo ou não.